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sexta-feira, 17 de junho de 2011

O Narrador

Por Ramiro Valdez

Eu sou a Voz de todos da tua minha cabeça conjunta de algodão leve-pesado. Eu sou aquele que molda tua mente e te faz visualizar coisas iluminadas sombrias banalmente extraordinárias. Eu dou magia a uma maçã solitária numa macieira solitária num parque cinza numa manhã chuvosa. Faço da melancolia, arte; do amor, veneno. Sim, sei de tudo, vejo tudo, estou em todo lugar nenhum, em qualquer instante da eternidade.
Sou o narrador em terceira pessoa, vazio vazio, sem substância, espiando a vida inventada, expiando a culpa criada, querendo mais do sumo da curiosidade, sugando toda a vida inventada a partir da mão. Sou o escravizado reflexo vazio de todos meus patrões – os vis e insensíveis escritores-, confinado nesse espelho – invólucro de insubstancialidade invisível: sou um vampiro da vida vivida; sugo o sangue da beleza, me alimento dos instantes mágicos, e também dos trágicos. De que adianta a onisciência, a onipresença, a atemporalidade, se nada toco, nada posso mudar? Minhas mãos etéreas só gesticulam, e se tento tocar algo, logo percebo que nada há para tocar e nada há para ser tocado.


Sou o fantasma que nunca viveu, a mente que nunca existiu... e mesmo assim, já testemunhei situações que mudaram o curso da humanidade: vi e descrevi um casal indo se encontrar na morte, com um brinde de cianureto; presenciei guerras épicas entre gregos e troianos, atos heróicos e covardes, incêndios trágicos, assassinatos brutais; já vi choros e leites derramados; eclodi epifanias, falsas epifanias, delírios dos mais absurdos; já vi o tudo e o nada, o Eterno, o Infinito, o Uno; já usei e abusei da beleza e da linguagem. Entretanto, em nada pude interferir: nenhuma paisagem retoquei, não impedi injustiças, não falei pra ela que ele a amava secretamente... não posso, meu emprego não permite, sou só um narrador em terceira pessoa; aquele que não toca o mundo, mas o descreve da maneira mais falsamente contagiante; o observo do alto. Um cidadão da mente coletiva, vagando sem rumo e já cansado de tanto vagar pela rede que interconecta você com aquilo que você chama de “os outros” – que na verdade também são você, mas isso já não compete a mim. Rodeios e enfeites foram usados para que você perceba que, embora pense que não exista mais ninguém aí, eu habito essa sua sutil ultra-realidade essencialmente onírica: a sua mente. Inocente e arrogante idéia essa sua, de achar que todas essas vozes e idéias são total e exclusivamente suas... tolinho.



4 comentários:

  1. nego miro, tu ta de parabéns. excelente teu texto.

    que tu tinha cabeça eu sabia, mas não conhecia essa qualidade poética que tu mostrou ao tirar da mente as palavras

    saudade de ti

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  2. Parabéns, mas discordo com o falso contagiante. Hehehe..

    Importante não ser narrador, apenas.

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  3. concordo contigo quanto ao teu discordar... pensando bem, nao é falso o contagio... mas o Narrador queria se lamentar, sei la, eu deixei ele chorar as magoas hehe

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  4. ah se tivesse te conhecido antes. ^^ Muito por descobrir e por compartilhar. excelente, de fato!!

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