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terça-feira, 21 de junho de 2011

O Eterno Presente

 Por Antonio Fregapane

    Certo dia, um jovem guerreiro passava por uma estrada quando, cansado, parou para descansar de baixo de uma grande figueira, se deparando com um velho peregrino que ali também repousava. O velho homem olhava diretamente para os céus esboçando um sorriso vivo e sóbrio, enquanto o cavaleiro real apenas observava, sem, no entanto, proferir palavra alguma. Foi então que perguntou o peregrino:

Peregrino: Bom dia meu jovem guerreiro! Estás tambem a apreciar o Eterno Presente?
                                                           
Guerreiro: O Eterno Presente? Não compreendo! Do que se trata, ó peregrino sem rumo?

P: Pois bem, trata-se do maior presente que o ser humano já recebeu: O Presente.


G: Presente para os seres humanos? Não consigo compreender do que falas! Estaria você, ó viajante desnorteado, sob o efeito de alguma erva relaxante? Afinal, que tal de presente com “P” maiúsculo é esse? E recebido de quem?

P: Pois então te explico, nobre guerreiro. Eis o que posso lhe dizer sobre o Presente. Desde os primórdios da espécie humana até os dias de hoje, são gastos mares de neurônios, oceanos de saliva e rios de tinta na tentativa de descobrir, descrever e classificar o que ou quem nos Presenteou com o Eterno Presente. Alguns chamam de Budda, outros chamam de Jah, muitos chamam de Deus ou de Cristo. Alguns outros ainda ousam denominar esse tão generoso ser de Akaso. Mas a verdade, ó meu caro amigo, é que estamos constantemente sendo Presenteados. Alias, meu jovem, não me interessa tanto saber quem ou o que seja essa tamanha entidade cuja generosidade é inesgotável. O que importa é que tudo nos é dado a todo o momento. Como um presente, meu amigo, como um Eterno Presente.

G: Ainda não compreendo do que falas. Perdoe minhas palavras, ó sábio viajante, mas soa a algo como aquelas baboseiras best-seller de auto-ajuda. Um pouco mais enfeitada talvez. Diga-me logo meu senhor, meu tempo está se esgotando, que proveito hei de tirar de tuas palavras para a minha vida?

P: Apesar de um guerreiro forte, meu caro amigo, careces de Paciência! Escute com atenção. Já percebestes que constantemente experienciamos atividades prazerosas, porém com a nossa mente "ausente"? Faça um exercício bem prático. Concentre-se em sua mente ao caminhar por um lindo bosque. Não será difícil para você perceber as constantes fugas que nossa mente empreende. Repare, ó meu jovem, que vivenciamos muito pouco de Corpo e Alma o Nosso Presente! Perceba como facilmente embarcamos à bordo do Navio do Pensamento e navegamos sem rumo pelo Mar das Angústias e das Divagações Vazias, ora recordando e remoendo fatos passados, ora antecipando e desacreditando nos planos futuros, sem, no entanto, chegar a lugar algum!

G: Ora, sábio peregrino! Pelo comprimento de tuas barbas de experiência, explica-me então porque deverias me importar tanto com esse tal Presente? Porque policiar minha mente ao invés de libertá-la para ir onde bem entender?

P: Pois então te digo, meu caro rapaz. O Maior Desejo de quem Presenteia é de que o Presenteado desfrute da melhor forma do Presente, fazendo o melhor uso do que lhe foi concedido! Ó jovem guerreiro, essa é a forma mais digna e gratificante de receber um Presente de Outrem! Essas viagens de que lhe falo, quando realizadas de forma involuntária, sem rumo, coagidas pelo Ego, demonstram, sobretudo, uma profunda Indiferença e uma extrema Ingratidão perante o Presente que nos foi dado tão generosamente! Feito beija-flores embriagados, procuramos em vão nas flores murchas do Passado e nas flores ainda muito jovens do Futuro! Sem perceber, no entanto, que o néctar de que tanto procuramos, ó meu jovem, se encontra bem debaixo de nossos narizes! Tudo que queremos nos é dado no Presente, de Presente! Não compartilhas de igual entendimento, nobre cavaleiro?

G: Concordo em parte, mas ainda não consigo visualizar. Ó sábio senhor das ruas, que utilidades teria seus ensinamentos para a minha jornada? Diga-me, pobre viajante, quando eu acordar amanhã sobre as palhas, que importância isso terá para mim nos dias seguintes?


P: Compreendo meu jovem. Pois voltemos então ao exemplo do passeio no bosque. Ora, se fomos Presenteados com uma bela caminhada, então que desfrutemos dela com o Coração! Contemplemos as belezas e as sutilezas das coloridas flores e das grandiosas árvores que nos cercam! Percebamos a diversidade de aromas presentes! Sintamos o vento tocar nossa face como uma mãe acaricia seu filho! Escutemos o poderoso som de nossa vitalidade à medida que aumentam os batimentos de nosso Coração! Absorvamos o influxo de ar puro que preenche nossos pulmões de vida! Atentemos para cada passo dado! Pois, meu caro jovem, nenhum passo é igual ao outro! Perceba, ó meu mais novo amigo, que o Passado são como águas passadas e o Futuro são como sementes não germinadas, que, quando germinarem, serão o nosso Presente!

G: Pois saibas, ó peregrino desocupado, que, diferente de vossa senhoria, o jovem guerreiro aqui possui muitas responsabilidades, encargos reais, negócios para gerir, armaduras novas para comprar, espadas para afiar, botas velhas para trocar! Não há tempo para parar e se preocupar com coisas tão banais e simplórias como uma mísera flor! Já que gostas, também te ensinarei algo sobre filosofia então, ó respeitável caminhante! A vida é curta! O anos estão passando cada vez mais rápidos! Perceba senhor, já é sexta-feira de novo! E já estamos quase na metade do ano! Não percebes que o tempo voa? Trate de acordar para o mundo e aproveitar a vida ao máximo! E mais, faça-o enquanto ainda há tempo!


Continua...

Agradeço a todos os leitores que tiveram a Paciência para ler até aqui! Boa semana!


2 comentários:

  1. "As pessoas acreditam que dependem dos eventos para serem felizes, isto é, que são dependentes da forma. Não percebem que o que acontece é a coisa mais instável do universo. Isso muda constantemente. Para elas, o momento presente encontra-se prejudicado tanto por um fato que aconteceu e que não deveria ter acontecido quanto por algo que não ocorreu, mas que deveria ocorrer. E assim perdem a perfeição mais profunda que é inerente à vida em si, aquela que está sempre aqui, que existe a despeito do que está acontecendo ou não, que está além da forma. Portanto, aceitando o momento presente, descobrimos uma perfeição que é maior do que qualquer forma e intocada pelo tempo. A Alegria do Ser, que é a única verdadeira felicidade, não pode nos acontecer por meio de nenhum tipo de forma, bem material, realização, pessoa, fato, isto é, por intermédio de nada que ocorra. A alegria não acontece para nós - nunca. Ela emana da dimensão sem forma em nosso interior, da consciência em si, portanto é una com quem nós somos." - Eckhart Tolle

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  2. Parabéns, belo texto!

    Fatidicamente nos posicionamos como um "Guerreiro", nossas habilidades de renegar e admirar os tons adoráveis em nossa volta é tamanha, façamos das nossas vidas como cores nudes, impercebíveis e sem graças.
    A verdade é que em tudo há um desfrute bondoso e digno, vai de corrigir mentalmente tal empenho.

    abs, Rai.

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