Guerreiro: Pois saibas, ó peregrino desocupado, que, diferente de vossa senhoria, o jovem guerreiro aqui possui muitas responsabilidades, encargos reais, negócios para gerir, armaduras novas para comprar, espadas para afiar, botas velhas para trocar! Não há tempo para parar e se preocupar com coisas tão banais e simplórias como uma mísera flor! Já que gostas, também te ensinarei algo sobre filosofia então, ó respeitável caminhante! A vida é curta! Os anos estão passando cada vez mais rápido! Veja senhor, já é sexta-feira de novo! E já estamos quase na metade do ano! Não percebes que o tempo voa? Trate de acordar para o mundo e aproveitar a vida ao máximo! E mais, faça-o enquanto ainda há tempo!
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| Salvador Dali |
G: Realmente. Vejo um virtuoso cavaleiro real. De armadura ultrapassada, de botas retrógradas que ainda nem terminou de pagar e, ainda por cima, inscrito no SPC!
P: Tuas angústias me espantam, meu jovem! Tantas preocupações supérfluas fizeram-no esquecer-te do Presente que ganhastes! Consigo ver em teus olhos. Perdestes o Paladar da Alma! Por isso não consegues mais degustar o doce sabor do Presente! Te tornastes um escravo do Tempo! Lembre-se que o Início e o Fim são os Grandes Mistérios, mas a vida não! A vida é simplesmente o Presente, é o próprio caminho, é a breve passagem pela Terra, o intervalo entre o fim de um ciclo e o início de outro! Não há porque te angustiar meu rapaz! Não estamos aqui para colecionar aquisições e prazeres nem para sugar freneticamente as sensações tão logo antes de morrermos! Estamos aqui para fazer de nossas virtudes instrumentos para melhorar o mundo! Semeando o Amor onde fores, pouco te importarás com o fim, pois colherás exatamente aquilo que plantastes em tua jornada! Assim, meu caro, terás o fruto-presente que quiseres! Perceba que não possuímos a capacidade de reescrever o passado nem de prever o futuro, mas recebemos algo de extremo valor: as Sementes da Vontade e o Solo Fértil do Presente!
G: Que seja, ó prolixo peregrino! Mas não concordas comigo em relação a atual velocidade dos ponteiros? A passagem do tempo me consome, senhor! Diga-me, com que fundamento pretendes demonstrar que poderíamos interferir no triste e veloz transcurso das horas?
P: Será, ó filósofo guerreiro, que realmente é o tempo que está se tornando fisicamente mais acelerado? Ou será que são os efeitos de nossas pseudo-necessidades criadas por nós mesmos que acaba com a nossa capacidade de apreciar e degustar as sutilezas da vida, nos desligando cada vez mais do momento Presente e produzindo essa consumidora sensação de que o tempo voa e de que não estamos aproveitando a vida?
G: Não vou negar o mal que me aflige! Pois te confesso então, sábio peregrino. Essa sensação que descrevestes é exatamente a que me corrói dia após dia! Mas não compreendo! De que forma nós, reles mortais, poderíamos influenciar na incontrolável velocidade do tempo?
P: Ouça! Os ponteiros do relógio transitam mais rápidos quando esquecemos da magnitude da existência! Perpassar pelos prazeres da vida roboticamente e adimplir nossos deveres com desgosto é o mesmo que colocar nossa vida no "piloto automático"! Pense na sua, jovem guerreiro. Não concordas que a banalização de nossos deveres e lazeres pode ser a fonte de muitas de nossas angústias? Inclusive, essa automatização serve como uma luva para explicar o sentimento de tristeza produzido no ser humano quando se dá conta da brevidade da vida. Preocupando-nos (pré-ocupar) demasiadamente com "o que aconteceu" e com "o que está por vir", acabamos, assim, por esvaecer com nossas alegrias. Quando estamos no aconchego do inverno, reclamamos do frio e imploramos pelo ímpeto do verão! Quando estamos no fervor do verão, recordamo-nos das introspecções e dos sentimentos que só a mais fria das estações nos proporciona! Enquanto apreciamos um delicioso sanduíche, já estamos pensando no vinho que tomaremos à noite na taverna, para então pensar na manhã do dia seguinte e, assim, vamos sendo dominados pelo movimento cíclico-angustiante de nossa mente doente, pois nunca vivemos com o Coração no Presente!
G: Possuis uma habilidade de percepção formidável, ó peregrino! Devo admitir que tuas palavras de fato tocam o meu coração! Reconheço que identificastes com maestria o sentimento que me afliges, mas saibas que o cavaleiro aqui não crê cegamente em qualquer voz que lhe passa pelos ouvidos! Só acredito no que é possível de ser demonstrado! Diga-me então, ó peregrino, porque deveria acreditar em tuas rebuscadas palavras? Como poderia me demonstrar que tuas afirmações são, de fato, verdadeiras?
P: Peregrino que sou, na minha vida tudo que aprendi foi a natureza que me ensinou. Abra os olhos e aprenda também, meu jovem! Enxergue a imensidão ao seu redor e sinta o que a natureza quer lhe transmitir! Matricule-se também na Escola da Vida, nobre guerreiro! Escute. Por detrás de todas as manifestações da natureza, existe um aprendizado! Estás vendo aquela criança nas margens daquele riacho? Aprenda com aquela menininha, meu jovem! Observe como ela sorridentemente corre atrás das borboletas que passam e como ela se encanta ao perceber a engraçada sincronia com que os patos enfileiradamente deslizam sobre as águas! Repare no brilho de seus olhos. Percebe como a menina se entusiasma a cada pedrinha que delicadamente lança no riacho? Tudo parece tão vivo e tão grandioso para aquela menininha! Guerreiro, consegues te recordar da época em que tinhas a mesma idade daquela criança? Lembra como tudo era tão fascinante e cheio de vida? De como o tempo parecia se arrastar lentamente como essa lesma percorre a imensidão desta figueira em que repousamos?
G: Realmente, o tempo não costumava voar na época em que brincava de escalar as maiores árvores da floresta! Pelo contrário, hei de concordar com o senhor, quando tinha a idade daquela menina, os intervalos entre um aniversário e outro eram eternos! Ó, que saudade dos meus tempos de ouro! Mas me parece lógico, peregrino. Quando somos crianças, somos felizes, pois não possuímos responsabilidade alguma. Mas, quando crescemos adquirimos a obrigação de sofrer e trabalhar. Não constitui esse o ciclo natural das coisas?
P: Vou lhe dizer uma coisa. Para quem possui consciência do Presente que recebeu, os tempos são sempre de ouro, pois o Presente é ouro e por isso nunca se deteriora. Podes ser o cavaleiro real de maiores encargos e atribuições do reino, mas se souberes a técnica adequada para lidar com as responsabilidades e dominar o Tempo, pode ser tão livre e tão sorridente quanto uma criança! É simples, meu jovem, independente da idade que tiver, basta cultivar o Fogo Interior aceso para transformar-se em um eterno jovem de espírito! Não deixe que o peso dos anos soterre a sua vitalidade! Ouça. Contemplando com gratidão as circunstâncias-presentes que nos foram dadas e extraindo o ensinamento existente em todas as situações, ainda que algumas sejam, inevitavelmente, desagradáveis, passamos a valorizar o caminho tanto quanto o fim. O resultado? Além de nos sentirmos mais tranqüilos com nós mesmos, acabamos por tornar todos os momentos mais longos e prazerosos. Utilizamos nosso poder mental para dilatar o tempo e maximizar a satisfação de cada passo dado na caminhada da vida.
G: Ó, pobre peregrino! Com todo o respeito devido, definitivamente deves estar fazendo uso de alguma daquelas plantas proibidas da floresta! Maximização de sensações e dilatação do tempo? Senhor, saibas que, apesar de jovem, não sou ignorante! Suas palavras me irritam! Falas como se fosse o senhor da verdade, mas o que dizes é impossível de ser comprovado! Cale-se! Você quer dizer que é possível tornar o tempo mais longo e as sensações mais prazerosas apenas a partir de nossa mente? Isso pra mim parece mais magia, feitiçaria ou algo do gênero!
P: Exatamente. Com certeza já deves ter ouvido falar pela comunidade que utilizamos apenas uma pequena parcela do potencial de nosso cérebro. Pois então, ó inteligente guerreiro, apresento-te a Magia: a capacidade de utilizarmos o poder da nossa mente para alterar a nossa realidade. Não se trata de fantasia ou superstição, meu caro! É, de novo, mais simples do que pensas! Atenção! Todo ser humano realiza Magia diariamente, em menor ou maior escala. É só concentrarmos nossas energias vitais em um único objetivo de cada vez. Garanto para ti, meu jovem, podes me cobrar: O Universo é como um Gênio da Lâmpada cujo poder de realização de desejos é ilimitado! Confia em mim, cavaleiro! Desde que focalize e acredite nos teus desejos de Corpo e Alma, como se Presentes fossem, tudo lhe será eternamente concedido! Basta lançar mão de tua Intuição para agir no momento em que se deparar com as circunstâncias que o Universo te colocar! Jamais esqueça, meu jovem: agindo com Gratidão, todo o resto lhe será dado de Presente!
O guerreiro então, sentimentalmente transtornado pelas tocantes palavras do velho peregrino, instintivamente empunha sua espada e investe contra o insuportável viajante no intuito de extinguir de uma vez por todas com aquelas incômodas e irritantes palavras que tanto o tinham afetado! Mas então, quando está prestes a desferir o ataque fatal e descarregar toda sua raiva, uma intensa luz dourada radiante advinda do velho senhor lhe ofusca os olhos, como se os queimasse feito brasa. O cavaleiro então acorda sobre as raízes daquela misteriosa figueira, abre lentamente os olhos, sente a graciosidade com que o vento minuano lhe toca a face, levanta-se e olha diretamente para os céus esboçando um sorriso vivo e sóbrio. Prossegue então na sua jornada com a mesma coragem e força que possuía antes de seu breve repouso, mas com a consciência do eterno peregrino que habita em seu Ser.

q doido esse teto da identidade do peregrino... a sabedoria ta onde a gente menos procura néréam, ó Mirri, cavaleiro-peregrino
ResponderExcluirSalve!
ResponderExcluirTexto muito bem escrito, bastante esclarecedor.
A criatividade é um dos caminhos da Iluminação.
Aho!