Certo dia, um jovem guerreiro passava por uma estrada quando, cansado, parou para descansar de baixo de uma grande figueira, se deparando com um velho peregrino que ali também repousava. O velho homem olhava diretamente para os céus esboçando um sorriso vivo e sóbrio, enquanto o cavaleiro real apenas observava, sem, no entanto, proferir palavra alguma. Foi então que perguntou o peregrino:
Peregrino: Bom dia meu jovem guerreiro! Estás tambem a apreciar o Eterno Presente?
Guerreiro: O Eterno Presente? Não compreendo! Do que se trata, ó peregrino sem rumo?
P: Pois bem, trata-se do maior presente que o ser humano já recebeu: O Presente.
G: Presente para os seres humanos? Não consigo compreender do que falas! Estaria você, ó viajante desnorteado, sob o efeito de alguma erva relaxante? Afinal, que tal de presente com “P” maiúsculo é esse? E recebido de quem?
P: Pois então te explico, nobre guerreiro. Eis o que posso lhe dizer sobre o Presente. Desde os primórdios da espécie humana até os dias de hoje, são gastos mares de neurônios, oceanos de saliva e rios de tinta na tentativa de descobrir, descrever e classificar o que ou quem nos Presenteou com o Eterno Presente. Alguns chamam de Budda, outros chamam de Jah, muitos chamam de Deus ou de Cristo. Alguns outros ainda ousam denominar esse tão generoso ser de Akaso. Mas a verdade, ó meu caro amigo, é que estamos constantemente sendo Presenteados. Alias, meu jovem, não me interessa tanto saber quem ou o que seja essa tamanha entidade cuja generosidade é inesgotável. O que importa é que tudo nos é dado a todo o momento. Como um presente, meu amigo, como um Eterno Presente.
G: Ainda não compreendo do que falas. Perdoe minhas palavras, ó sábio viajante, mas soa a algo como aquelas baboseiras best-seller de auto-ajuda. Um pouco mais enfeitada talvez. Diga-me logo meu senhor, meu tempo está se esgotando, que proveito hei de tirar de tuas palavras para a minha vida?
P: Apesar de um guerreiro forte, meu caro amigo, careces de Paciência! Escute com atenção. Já percebestes que constantemente experienciamos atividades prazerosas, porém com a nossa mente "ausente"? Faça um exercício bem prático. Concentre-se em sua mente ao caminhar por um lindo bosque. Não será difícil para você perceber as constantes fugas que nossa mente empreende. Repare, ó meu jovem, que vivenciamos muito pouco de Corpo e Alma o Nosso Presente! Perceba como facilmente embarcamos à bordo do Navio do Pensamento e navegamos sem rumo pelo Mar das Angústias e das Divagações Vazias, ora recordando e remoendo fatos passados, ora antecipando e desacreditando nos planos futuros, sem, no entanto, chegar a lugar algum!
G: Ora, sábio peregrino! Pelo comprimento de tuas barbas de experiência, explica-me então porque deverias me importar tanto com esse tal Presente? Porque policiar minha mente ao invés de libertá-la para ir onde bem entender?
P: Pois então te digo, meu caro rapaz. O Maior Desejo de quem Presenteia é de que o Presenteado desfrute da melhor forma do Presente, fazendo o melhor uso do que lhe foi concedido! Ó jovem guerreiro, essa é a forma mais digna e gratificante de receber um Presente de Outrem! Essas viagens de que lhe falo, quando realizadas de forma involuntária, sem rumo, coagidas pelo Ego, demonstram, sobretudo, uma profunda Indiferença e uma extrema Ingratidão perante o Presente que nos foi dado tão generosamente! Feito beija-flores embriagados, procuramos em vão nas flores murchas do Passado e nas flores ainda muito jovens do Futuro! Sem perceber, no entanto, que o néctar de que tanto procuramos, ó meu jovem, se encontra bem debaixo de nossos narizes! Tudo que queremos nos é dado no Presente, de Presente! Não compartilhas de igual entendimento, nobre cavaleiro?
G: Concordo em parte, mas ainda não consigo visualizar. Ó sábio senhor das ruas, que utilidades teria seus ensinamentos para a minha jornada? Diga-me, pobre viajante, quando eu acordar amanhã sobre as palhas, que importância isso terá para mim nos dias seguintes?
P: Compreendo meu jovem. Pois voltemos então ao exemplo do passeio no bosque. Ora, se fomos Presenteados com uma bela caminhada, então que desfrutemos dela com o Coração! Contemplemos as belezas e as sutilezas das coloridas flores e das grandiosas árvores que nos cercam! Percebamos a diversidade de aromas presentes! Sintamos o vento tocar nossa face como uma mãe acaricia seu filho! Escutemos o poderoso som de nossa vitalidade à medida que aumentam os batimentos de nosso Coração! Absorvamos o influxo de ar puro que preenche nossos pulmões de vida! Atentemos para cada passo dado! Pois, meu caro jovem, nenhum passo é igual ao outro! Perceba, ó meu mais novo amigo, que o Passado são como águas passadas e o Futuro são como sementes não germinadas, que, quando germinarem, serão o nosso Presente!
G: Pois saibas, ó peregrino desocupado, que, diferente de vossa senhoria, o jovem guerreiro aqui possui muitas responsabilidades, encargos reais, negócios para gerir, armaduras novas para comprar, espadas para afiar, botas velhas para trocar! Não há tempo para parar e se preocupar com coisas tão banais e simplórias como uma mísera flor! Já que gostas, também te ensinarei algo sobre filosofia então, ó respeitável caminhante! A vida é curta! O anos estão passando cada vez mais rápidos! Perceba senhor, já é sexta-feira de novo! E já estamos quase na metade do ano! Não percebes que o tempo voa? Trate de acordar para o mundo e aproveitar a vida ao máximo! E mais, faça-o enquanto ainda há tempo!
Continua...
Agradeço a todos os leitores que tiveram a Paciência para ler até aqui! Boa semana!
"As pessoas acreditam que dependem dos eventos para serem felizes, isto é, que são dependentes da forma. Não percebem que o que acontece é a coisa mais instável do universo. Isso muda constantemente. Para elas, o momento presente encontra-se prejudicado tanto por um fato que aconteceu e que não deveria ter acontecido quanto por algo que não ocorreu, mas que deveria ocorrer. E assim perdem a perfeição mais profunda que é inerente à vida em si, aquela que está sempre aqui, que existe a despeito do que está acontecendo ou não, que está além da forma. Portanto, aceitando o momento presente, descobrimos uma perfeição que é maior do que qualquer forma e intocada pelo tempo. A Alegria do Ser, que é a única verdadeira felicidade, não pode nos acontecer por meio de nenhum tipo de forma, bem material, realização, pessoa, fato, isto é, por intermédio de nada que ocorra. A alegria não acontece para nós - nunca. Ela emana da dimensão sem forma em nosso interior, da consciência em si, portanto é una com quem nós somos." - Eckhart Tolle
ResponderExcluirParabéns, belo texto!
ResponderExcluirFatidicamente nos posicionamos como um "Guerreiro", nossas habilidades de renegar e admirar os tons adoráveis em nossa volta é tamanha, façamos das nossas vidas como cores nudes, impercebíveis e sem graças.
A verdade é que em tudo há um desfrute bondoso e digno, vai de corrigir mentalmente tal empenho.
abs, Rai.